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21 agosto, 2004não fui logo a correr, mas já fuiOntem fui ver o Fahrenheit 9/11. Digamos que, de certa forma, ficou aquém das minhas espectativas. A minha própria teoria da conspiração é bastante mais arrojada: a mim ninguém me tira da ideia que a ameaça de um ataque terrorista aos EUA não foi ignorada por negligência, como é sugerido por Mr. Moore, mas sim propositadamente. Eles que venham, que o Mr. President precisa de posar de herói salvador da pátria e fazer com que toda a gente se esqueça de que não foi realmente eleito, e pelo caminho ainda aproveita para aumentar o pecúlio familiar. Perante o início do filme, pensei seriamente que essa seria a teoria apresentada. Mas se até para mim é aterrador pensar nisso, imagino que para um americano, mesmo que abomine a criatura, seja completamente impensável que o próprio presidente abra deliberadamente as portas do país a um ataque terrorista. E fica-se pela teoria dos 42% do tempo em férias, da inactividade, da negligência, que se juntarmos a todas aquelas ligações mais que duvidosas, é já por si só motivo de uma bela temporada nos piores calabouços. Para além de tudo o mais que é impressionante – e que é quase tudo – a facilidade com que todos aqueles factos são apresentados é absolutamente inacreditável. Como se estivessem ali à mão de semear, para quem quiser ver e juntar as peças. À cara podre, sem o mínimo de vergonha. É a arquitectura da conspiração posta a descoberto, de uma forma quase genial. E digo quase, porque depois há o recurso ao populismo fácil, com a sobrexploração do sofrimento das famílias dos soldados mortos no Iraque, personificado numa determinada mãe. Não querendo também subestimar o sofrimento daquela família em particular, e das outras centenas de famílias na mesma situação, mas pareceu-me excessivo, dispensável, e não estava à espera deste tipo de abordagem . Podia até ter saído de um telejornal da TVI. De resto, impressionou-me especialmente a forma como os miúdos são recrutados para as forças armadas – nos bairros mais pobres, onde as pessoas têm poucas ou nenhumas alternativas, na cantina da escola, no parque de estacionamento do centro comercial, são aliciados de todas as formas possíveis e imaginárias, por dois senhores para quem a melhor definição será “vendedores de banha da cobra”. Bem parecidos, bem fardados e bem engomados, com cartãozinho de visita: “Vem para os marines e poderás ser o que quiseres”. Até carne para canhão. Não posso dizer que fiquei estupefacta com o filme, muitas das coisas não foram sequer novidade. Mas uma coisa é ir recebendo a informação dispersa, ir juntando peças, dissertar sobre um assunto que parece que nos afecta tão remotamente. Outra coisa é assistir, ver pessoas com anos luz de informação a mais, completamente dentro das questões, confirmar as nossas teorias, as nossas dissertações filosóficas, e tomar consciência da aldeola global, de como tudo e todos estamos tão intimamente ligados e sujeitos às conspirações e orquestrações de meia dúzia de alucinados. Tenho também a consciência de que todo o filme é apresentado de uma forma absolutamente parcial, tendenciosa, manipuladora até, e com o propósito muito específico de fazer campanha anti-Bush. Não que ele precise que alguém a faça por ele, a verdade é que o senhor trata disso muito bem sozinho. Mas pronto, há que admitir que neste caso sou completamente manipulável. Saí do cinema com vontade de ir queimar soutiens para a frente da Casa Branca. catarinia @ 04:55
Comentários
O que mais me causou impressão é o facto do zé povinho português, ir ver o documentário( com todos os defeitos e virtudes inerentes) e ve-lo como um filme. Como se aquilo fossem personagens, um argumento muito bem imaginado, e pronto. QUando se sai da sala o filme acabou e pronto, de volta à realidade. ninguém se lembra que o filme, quando se sai da sala, ainda está a decorrer, e dura, e dura, e dura... Afixado por jpqueiros @ 23 agosto 2004, 10:25 |